Estacionamento Rotativo: A economia das multas de trânsito

Recentemente, me chamou atenção uma discussão que não raramente é alvo de debate entre os frequentadores do Centro, Funcionários e Savassi em Belo Horizonte.
<<Vale a pena pagar o faixa azul?>>
Talvez a pergunta esteja um pouco precipitada, primeiro vamos observar com cautela toda a estrutura que é a concepção do Estacionamento Rotativo.
A primeira vista, a função do estacionamento rotativo parece ser muito clara, eu diria até intuitiva; Áreas de maior fluxo de pessoas nos centros urbanos precisam ter uma oferta compatível de locais de estacionamento, para atender a esta demanda latente. Poderíamos nos perguntar: Mas, será que estas pessoas que fazem pressão de demanda para estas vagas de estacionamento em locais de maior fluxo, não poderiam lançar mão de transportes públicos? A resposta clara é não, mas a discussão deste tópico fica para a posterioridade, uma vez que o foco deste post é efetivamente analisar o porquê do estacionamento rotativo. A consideração que eu deixo é que, na margem, possa have algumas pessoas que optem pela migração no meio de transporte, mas em números reais, a hipótese não é empiricamente significativa.
Considerando então que o número de pessoas que utilizam-se do meio de transporte privado para acesso a estas áreas de maior fluxo de pessoas, é preciso oferecer oferta compatível. O Governo então tem duas possibilidades: Aumentar o número de vagas (investindo em infra-estrutura/áreas de estacionamento) ou efetivamente regulamentando e reduzindo o número de hora disponíveis para a ocupação de vagas.
Hoje, em Belo Horizonte, tem-se vagas de 5h; 2h e 1h nas áreas onde se configura o chamado Estacionamento Rotativo. Como é feita esta regulamentação? Simples, como um formulário a ser preenchido da hora em que você estacionou. Como não poderia ser diferente, tratando-se do Brasil, este formulário tem um custo, preço sugerido: R$2,70. Para usuários frequentes, a melhor opção é adquirir o talão deste formulário, comumente chamado de Faixa Azul, em bancas e lanchonetes, que em geral vendem por R$27,00 o talão com 10 unidades.
Mas aí, você pode estar se perguntando, você que não é habitante de BH, e se eu não tiver um faixa azul bem na hora de estacionar? Não tem problema, porque tem sempre um alguém à disposição para te vender o faixa azul por R$4,50…
A situação acima pode ser analisada de dois pontos de vista diferentes: Primeiro – > O cara que “se voluntariava” para monitorar visualmente o seu carro, para ter certeza de que ele não seria atingido ou roubado, por uma simbólica contribuição; agora vende o faixa azul superavaliado, e ganha na margem o “valor simbólico” que pedia antes para ficar sentado na frente do seu carro. Segundo – > é uma simples análise de mercado, quando você não tem faixa azul e está com pressa, seu preço de reserva; ou seja; o valor que está disposto a pagar por um faixa azul é bem mais alto do que em situações ordinárias, tornando possível então que os vendedores de faixa azul ganhem em cima do seu desespero.
Bom, refletindo novamente em cima dos mecanismos do governo para incentivar o estacionamento rotativo; uma vez que fora criado o formulário, e imposto um custo, é necessária uma fiscalização, pois em situações de perdas, os indivíduos tendem a ser propensos ao risco, ao invés de avessos. O que isso quer dizer? Entre a certeza de perder um valor x em dinheiro e a possibilidade de perder este valor x em dinheiro, os indivíduos ficam com a incerteza.
Mas a fiscalização existe.
Agora, um sujeito que trabalha nestas áreas de estacionamento rotativo, não tem a escolha de cumprir o número exato de horas do rotativo, pois ele trabalha em média 8 horas por dia. Isso significa pelo menos 2 rotativos por dia (se conseguir uma vaga de 5 horas). O gasto mensal desta pessoa, que consegue parar em vagas de 5 horas todos os dias, é de:
2 X 2.70 X 5 X 4 = R$108,00 (2 faixas azul por dia, ao preço de 2,70; 5 dias por semana, 4 semanas por mês)
O valor da multa é de R$40,00 caso seja detectada a infração.
A discussão que me chamou a atenção hoje era a percepção das pessoas de que em média, levavam 1 multa a cada dois meses. É claro que neste caso, existe a possibilidade de ser multado todos os dias, bem como a possibilidade de não ser multado nunca, mas em média, era a certeza de se gastar R$216 com faixa azul a cada dois meses, e a possibilidade de em média perder R$40 com a infração.
Claro que existem aqueles que são extremamente avessos ao risco, eu admito que este seja o meu caso, e embora perceba a oportunidade de economia em burlar a lei, ainda a obedeço na risca.
Mas com este exercício de raciocínio sobre a economia das multas, fica muito claro que o esquema de incentivos está errado.

Pense nisso

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