Será que estamos em crise?

A preocupação geral com a queda da Bovespa no Brasil, embora seja assustadora, não é um fato isolado, e tampouco significa que estamos vivendo uma crise econômica. De fato, todos os demais indicadores de política macroeconômica, bem como os de cunho social tem mostrado surpreendente melhora. O desemprego para o mesmo período no ano passado, passou de 6.9% para 6.2% da PEA (População Economicamente Ativa). A inflação prevista está acima da meta inflacionária, no entanto ainda se encontra dentro das bandas (intervalo de variação, estabelecido conjuntamente com a meta) e não obstante, projeção de crescimento de 4.5% para o ano de 2011. É verdade que a taxa de crescimento do ano passado foi quase 7%, o que não significa crise, mas sim um crescimento mais moderado.

De fato, muito se fala em crise na mídia, mas boa parte disso tem uma abordagem unilateral e incompleta do que estamos vivendo. Mas aí você pode se perguntar: Se não estamos em crise, porque então esta queda acentuada na bolsa de valores? Simples, mais de 50%  do capital investido hoje na nossa Bolsa de Valores é capital estrangeiro. Os demais países do mundo observam um sufocamento econômico, e com isso a tendência é retirar seus ativos de investimentos de maior volatilidade, da bolsa de valores por exemplo, e passar a investir em Bolsa de Bens (daí o porquê de não ter caído a BM&F) ou títulos da dívida pública. Manchete hoje no Le Monde (jornal francês)  diz que as bolsas hoje já abriram em baixa considerável.

Vocês podem estar se perguntando: Se esta crise na bolsa de valores não afetou os demais indicadores macroeconômicos, porque então deveríamos nos preocupar com isso? Esta resposta pode ser dada em duas abordagens diferentes. A primeira delas é que o investidor do mercado de Capitais busca remuneração do seu próprio capital no intuito de aumentar sua restrição orçamentária intertemporal. O que é isso? Basicamente, significa que ele investe hoje para consumir mais amanhã. É a mesma razão pela qual todos poupam, a poupança significa abrir mão de consumir hoje em prol de consumir no futuro. E isto é vital para a economia, pois garante demanda futura. A segunda abordagem é que o Mercado de capitais é o principal meio de captação de investimento privado na economia. Se as pessoas param de investir na Bolsa de Valores, as empresas perdem fonte de recursos. Se uma ação valia R$40 por exemplo, e ela cair para R$20, significa que o setor produtivo capta a metade dos recursos que antes captava.

No curto prazo, isso pode até ser sustentável, mas no longo prazo, ou as empresas se retraem, aí sim contraindo a economia, ou o governo entrar suprindo essa demanda de capital latente, e isto se traduzirá em aumento da nossa já pesada carga tributária.