Santa Maria e Multidões

Desde muito nova, sempre tive um certo receio de multidões. Este receio já teve várias fases. Já fiquei incomodada, depois realmente claustrofóbica, já tive medo, já tive pânico…hoje, mais madura e racional, consigo enxergar razões para aquilo que não passava de um sentimento sintomático.

Gostaria de primeira oferecer minhas mais sinceras condolências a todas as famílias e amigos que perderam pessoas queridas naquela infeliz tragédia.

Vi no jornal as pessoas pedindo por justiça. Sem querer ser do contra, e agir como vento contrário no senso de justiça e impunidade do povo brasileiro, tão raro, tão à deriva e à mercê de grandes tragédias…justiça do que?

Queremos que o dono do estabelecimento pague por sua boate não ser mais segura?…ok…não vai trazer as pessoas de volta, e vai ser um bode expiatório perto de todas as outras boates não seguras que tempos por aí. Queremos que os bombeiros que concederam o alvará paguem pela negligência?…ok…não vai trazer as pessoas de volta, e todos os outros bombeiros e alvarás por aí concedidos, estão soltos, continuarão a conceder alvarás…Ou vamos querer que a banda pague por usar fogos de artifício para ambientes abertos em um ambiente fechado?…ok…não vai trazer as pessoas de volta, nem os próprios integrantes da banda…Queremos punir os seguranças por terem segurado a porta?…ok…não vai trazer as pessoas de volta, e eles só cumpriam o direcionamento que lhes foi dado, a ordem é clara e unilateral – Ninguém sai sem pagar.

O que aconteceu em Santa Maria, num foi culpa de ninguém….e ao mesmo tempo de todos nós…sucessão de atos improváveis, aliados a negligência generalizada, leis fracas e falta de informação.

O maior e pior fator de todos estes é o pânico. Uma pessoa em si, talvez seja racional, mas a multidão não é…a multidão nunca é racional. Você corre porque se não correr, você cai e as pessoas pisam em você. Você não decide para onde vai, a multidão decide por você. Neste ponto, não somos nada melhores que os animais…