Cozinha

Quando você se muda, monta um novo apartamento, escolhe um outro lugar para chamar de lar, o processo de adaptação nunca é fácil. O colchão da sua cama não tem a mesma consistência, o lugar onde você costumava deixar o celular para despertar já não está lá, a temperatura do chuveiro já não obedece à “técnica” que você demorou banhos e banhos para desenvolver. São todas coisas com as quais você precisa reaprender a se relacionar, porque embora sejam objetos inanimados, elas carregam consigo um peso no nosso cotidiano, com as quais aprendemos a lidar.

Mas de todas as coisas da casa, de todos os ambientes, de todas as situações, a que julgo mais importante é a cozinha. Isso pode chocar a muitos, que podem pensar: É no quarto, na cama que você passa 1/3 de sua vida. Mas a verdade é que o quarto é sempre um ambiente muito pessoal, e é razoavelmente simples se acomodar desde que leve consigo outros objetos pessoais. É na cozinha que as coisas acontecem, especialmente na minha cultura mineira.

Já dizia Rubem Alves:

Cozinha: ali se aprende a vida. É como uma escola em que o corpo, obrigado a comer para sobreviver, acaba por descobrir que o prazer vem de contrabando. A pura utilidade alimentar, coisa boa para a saúde, pela magia da culinária, se torna arte, brinquedo, fruição, alegria. Cozinha, lugar dos risos…

A verdade é que a cozinha é um lugar de criação, e não de uma coisa qualquer, mas sim daquilo que nos servirá de alimento, de combustível, que nos dará energia. Além de energia, a gastronomia é fonte de prazer, uma mistura de cores, sabores, cheiros e texturas. A cozinha também é um lugar de partilha com a família, com seus amigos. É um lugar de comunhão consigo mesmo, um lugar onde você dedica tempo, imaginação e habilidades manuais para produzir algo para você mesmo consumir.

Por isso, assim que eu me mudo, eu posso esperar para arrumar muitas partes da casa, mas a cozinha, esta recebe minha completa atenção. Não quero que falte talheres, prato, panelas, pano de prato, alimentos na geladeira, temperos variados. Quando a cozinha está incompleta, esta é a hora que eu mais me sinto só, a hora que me sinto sem lugar, sem lar. A companhia nas refeições também me faz falta, muito mais do que ter alguém para conversar…mas isso tudo faz parte das várias coisas com as quais tenho que me adaptar.