A história sem fim…

De todas as ações humanas, a mais insana é a guerra.

Se vocês procurarem esta frase na internet, talvez encontrem várias citações parecidas de famosos autores ao longo da história da humanidade. Acho difícil que encontrem uma exatamente igual a esta. No entanto, esta citação tem um valor muito importante para mim. Essa foi a resposta que minha mãe me deu quando eu tinha apenas 5 anos de idade quando nos mudamos para Angola, para uma guerra civil que já durava três décadas, quando eu a perguntei porque havia tantas pessoas sem perna. Aos cinco anos de idade, eu não sabia o significado da palavra insana, mas de maneira curiosa, aquele adjetivo parecia fazer sentido para mim, como se desse nome ao incompreensível, indescritível, inenarrável.

A tal da guerra parece um vírus incurável, mutante, que se aloja em diferentes lugares ao passar das gerações. Este vírus que aprisiona células saudáveis e as mata, forçando-as a reproduzir mais vírus, mais guerra. Este fenômeno que parece emergir da prória natureza humana, e ironicamente ser aquilo que a destrói.

A guerra é palco de histórias verídicas, de narrativas imaginárias. Inspira canções, livros, filmes. Monumentos são erguidos em sua memória, tratados são assinados, promessas são feitas. A guerra cria heróis, vilões, mártires, estrategistas, condecorações, empregos, derrotados, vencedores, mas nunca ganhadores. Na guerra, todo mundo perde alguma coisa.

Ironicamente, o velho mundo, o continente tido como o mais civilizado de todos os continentes, fora também ao longo da história o maior palco de guerras e invasões de toda a história da humanidade. Jamais em toda a história um local sofreu tantas alterações políticas como a Europa.

Countries_of_Europe_last_subordination_png

Eu encontrei este mapa navegando pela internet, da última data em que cada país desta região fora ocupado e por quem. Existem algumas ressalvas a serem feitas, começando pelo erro ortográfico no nome da Iugoslávia (Yugoslavia). A Turquia fora ocupada depois da primeira guerra mundial, aqui diz que a Alemanha como um todo fora ocupada até 1991, sendo que ambas Leste e Oeste estiveram independentes durante praticamente toda a Guerra Fria. Apesar disto, o mapa traz alguns fatos interessantes. A Inglaterra, depois da união com Escócia e País de Gales em 1707, nunca fora ocupada (único país europeu contemporâneo em que isto é verdade). A política Suíça de imparcialidade tem sido efetiva em mantê-la fora de ocupação estrangeira. A Rússia manteve-se livre de ocupação desde que expulsaram Golden Horde (Sucessr do Império Genghis-Khan) em 1480.

Se observarem bem o mapa, a última data de invasão e ocupação que consta para a Ucrânia é 1991, data da queda da União Soviética. Esta data deveria ser 2014 pois neste momento a Rússia ocupa Criméia. Este mapa está não somente desatualizado, mas mostra uma alarmante realidade: Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Europa tem feito um bom trabalho em evitar novas guerras em seu território, e desde o fim da Guerra Fria, um notável progresso em impedir ocupações estrangeiras…..até agora.

Anexar Criméia ao seu território e invasões no leste ucraniano ameaça o acordo incipiente entre países europeus que é impensável começar guerras de conquista territorial. Acadêmicos de relações internacionais chamam isso de norma internacional – uma idéia que aos poucos se tornou algo similar a regra ou código de conduta entre os países.

A importância do conflito na Criméia, que tem como lema “Процветание в единстве” (Prosperidade na Unidade), tem pouco ou nada a ver com a Criméia, e tudo a ver com a Rússia, o maior país do mundo, pisando fora do seu gramado para roubar manga do vizinho. Enquanto isso, todos os olhares do mundo se viram para ver até onde vai a ousadia de um país em perturbar a ordem mundial para benefício próprio (ou melhor, a possibilidade de benefício).

Nessa história sem fim onde a guerra parece ser a protagonista e as organizações mundiais meros coadjuvantes, eu só me faço questionar quem é o autor, se as nações serão capazes de em fim reconhecer algo que minha mãe me explicou quando eu tinha apenas cinco anos….a insanidade da guerra.