Narrativa

Lembro-me de quando aprendi a ler, e comecei a estudar os textos com minha mãe (que por acaso também era minha professora), discutíamos como há diferentes formas de se contar uma história. Ela me ensinou que existe o narrador observador e o narrador personagem. Quando perguntei se só existiam dois, a resposta me deixou intrigada: “Não, essa é uma classificação simples, mas que serve para a gente entender que às vezes quem conta a história faz parte dela, e outras a pessoa vê a história acontecer. Se 100 pessoas contarem a mesma história, contarão de maneiras diferentes, porque a interpretação que a gente dá para a história depende de quem a gente é. Como ninguém é igual ao outro, as histórias também não serão…”

Essa observação já se provou verdade na minha vida de diversas maneiras, mas hoje eu presenciei mais uma delas. Eu estava dando uma aula de Comércio Internacional na Universidade do Kansas, e comecei a explicar a Teoria de Vantagem Comparativa de Ricardo, indo desde às relações mercantilistas de Metrópole-Colônia até o comércio que beneficia ambas as nações. Os Estados Unidos e o Brasil, neste quesito e momento tiveram histórias parecidas: Colonizados por um país Europeu, tiveram nativos indígenas dizimados, e negros africanos trazidos para trabalhar como escravos. A história eu conhecia bem, mas quando pedi para meus alunos irem “resgatando os detalhes” de suas memórias para construirmos o argumento econômico, eu me deparei com um detalhe interessante: A Narrativa.

Um Brasileiro tende a contar sua história assim: “Em 1500 Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao Rei De Portugal, eles se estabeleceram no litoral, mataram nossos índios, e começaram a explorar o Pau-Brasil. Mais tarde, trouxeram negros escravos que começaram a trabalhar no plantio…….” Deu para entender….

Um Americano conta a história assim: “Na Europa não havia muita liberdade política, então nós juntamos tudo o que tínhamos, entramos em um navio e navegamos por meses até cruzar o Atlântico, e encontramos esta Terra. Já haviam índios morando no Novo Mundo, (Aí eles pulam a parte que mataram os índios e falam do Dia de Ação de Graças), bla bla bla….nos unimos, escrevemos a Constituição…..”

Depois disso, há dois pontos que eu gostaria de fazer: Primeiramente – o brasileiro conta sua história como narrador observador. Não nos consideramos protagonistas de nossa própria história. Tenho a impressão que 500 anos se passaram e ainda nos sentimos assim, porque ainda que o poder de exercer nossa vontade nas urnas nos pertença, não fazemos uso dessa ferramenta para mudar nada. A nossa economia vai por água abaixo, e não há sequer um brasileiro que se sinta responsável.

O segundo ponto é perceber que apesar do Americano narrar a história como narrador personagem, ele assume o papel do europeu na história. Os negros e os índios fazem parte do cenário, e embora eles batam no peito para dizer que o “Novo Mundo” foi onde encontrarão liberdade : Política, Religiosa, Étnica….a própria forma com que contam a história é assimétrica e discriminatória.

Qual é a maneira certa de narrarmos nossa própria história? Eu não sei, talvez não haja uma. Ainda que não exista resposta, é algo que definitivamente vale à pena pensar.

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